quarta-feira, 28 de julho de 2010

Entre as palhas do conhecimento (agulha no palheiro)

Ao anoitecer, acompanhado de um cigarro de palha, fui regar minhas plantas. Minha companhia estava restrita aos meus apetrechos, as plantas e o luar. Sem ninguém para me vigiar, traguei a fumaça até ficar com as pernas descontroladas e aparentemente livre de pensamento. Que calma, pensei. Na hora, me lembrei das plantas de poderes que Castañeda relatou em algum de seus livros. (Poxa, que massa essa brisa). Como será que o fumo do meu cigarro de palha se tornou um papel branco com filtro, sem o gosto da planta e com cheiro de outra coisa?
Não sei responder a pergunta. Mas, é plausível que o significado do cigarro de papel está associado a outros hábitos diferentes da maneira de consumir o cigarro de palha e também dos modos de produção deste. As porções utilizadas para compor os cigarros e a quantidade de tragadas diferenciam entre si. Será que o efeito é o mesmo? (Não estou preocupado com o efeito em longo prazo no organismo) São eles coisas distintas ou será que estou procurando uma forma para justificar meu comportamento?
São tantas dúvidas que não sei por onde começar. Essa necessidade de explicações teóricas vale de alguma coisa? Nada traduz ou consegue induzir a sensação de se estar só consigo mesmo. Introspecção e extrospecção. Devolvam meu cigarro de palha. Cansei desse mundo que pensa que sabe pensar.

“12 Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém. 13 Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo o que se passa debaixo dos céus. Deus impôs aos homens essa ocupação ingrata. 14 Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade e vento que passa.
15 O que está curvado não se pode endireitar, e o que falta não se pode calcular.
16 Eu disse comigo mesmo: “Eis que amontoei e acumulei mais sabedoria que todos que me precederam em Jerusalém. Porque meu espírito estudou muito a sabedoria e a ciência, 17 e apliquei o meu espírito ao discernimento da sabedoria, da loucura e da tolice. Mas cheguei à conclusão de que isso é também vento que passa. 18 Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quem aumenta a ciência, aumenta a dor.” (ECLESIASTES, 1; 12 - 18)

O problema em ser humano é saber que tudo o que é inerente à espécie advém de uma construção intelectual que responde à necessidade de comunicação e interação destes animais. Tudo o que acreditamos existir é apenas uma resposta que oferecemos a nós mesmos para saciar nossas próprias dúvidas. É estranho pensar que nossos próprios pensamentos são intenções exteriorizadas com a finalidade de conseguir satisfação; toda intenção é voltada para a satisfação. Somos incompletos, no entanto nossa completude é adquirida quando utilizamos nossa própria incompletude para criar artifícios que nos completa. Talvez este fosse o paradoxo humano: criação de sua própria criação. Qualquer operação mental de qualquer referencial tomado, ao que nos parece, chega neste paradoxo.

(O fumo, como remédio, era usado juntamente com o alecrim para cicatrizar o cordão umbilical do recém-nascido)

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