quinta-feira, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Entre as palhas do conhecimento (agulha no palheiro)

Ao anoitecer, acompanhado de um cigarro de palha, fui regar minhas plantas. Minha companhia estava restrita aos meus apetrechos, as plantas e o luar. Sem ninguém para me vigiar, traguei a fumaça até ficar com as pernas descontroladas e aparentemente livre de pensamento. Que calma, pensei. Na hora, me lembrei das plantas de poderes que Castañeda relatou em algum de seus livros. (Poxa, que massa essa brisa). Como será que o fumo do meu cigarro de palha se tornou um papel branco com filtro, sem o gosto da planta e com cheiro de outra coisa?
Não sei responder a pergunta. Mas, é plausível que o significado do cigarro de papel está associado a outros hábitos diferentes da maneira de consumir o cigarro de palha e também dos modos de produção deste. As porções utilizadas para compor os cigarros e a quantidade de tragadas diferenciam entre si. Será que o efeito é o mesmo? (Não estou preocupado com o efeito em longo prazo no organismo) São eles coisas distintas ou será que estou procurando uma forma para justificar meu comportamento?
São tantas dúvidas que não sei por onde começar. Essa necessidade de explicações teóricas vale de alguma coisa? Nada traduz ou consegue induzir a sensação de se estar só consigo mesmo. Introspecção e extrospecção. Devolvam meu cigarro de palha. Cansei desse mundo que pensa que sabe pensar.

“12 Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém. 13 Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo o que se passa debaixo dos céus. Deus impôs aos homens essa ocupação ingrata. 14 Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade e vento que passa.
15 O que está curvado não se pode endireitar, e o que falta não se pode calcular.
16 Eu disse comigo mesmo: “Eis que amontoei e acumulei mais sabedoria que todos que me precederam em Jerusalém. Porque meu espírito estudou muito a sabedoria e a ciência, 17 e apliquei o meu espírito ao discernimento da sabedoria, da loucura e da tolice. Mas cheguei à conclusão de que isso é também vento que passa. 18 Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quem aumenta a ciência, aumenta a dor.” (ECLESIASTES, 1; 12 - 18)

O problema em ser humano é saber que tudo o que é inerente à espécie advém de uma construção intelectual que responde à necessidade de comunicação e interação destes animais. Tudo o que acreditamos existir é apenas uma resposta que oferecemos a nós mesmos para saciar nossas próprias dúvidas. É estranho pensar que nossos próprios pensamentos são intenções exteriorizadas com a finalidade de conseguir satisfação; toda intenção é voltada para a satisfação. Somos incompletos, no entanto nossa completude é adquirida quando utilizamos nossa própria incompletude para criar artifícios que nos completa. Talvez este fosse o paradoxo humano: criação de sua própria criação. Qualquer operação mental de qualquer referencial tomado, ao que nos parece, chega neste paradoxo.

(O fumo, como remédio, era usado juntamente com o alecrim para cicatrizar o cordão umbilical do recém-nascido)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O que te trouxe até aqui?



O que te trouxe até aqui?
A dor das coisas que não foram vividas?
A fragilidade das coisas esquecidas?
A derrota nas lutas que não foram perdidas?

O que te trouxe até aqui?
A obrigação de ter que partir?
O medo de não saber como seguir?
A ganância do comprar e possuir?

O que te trouxe até aqui?
Não sabe? Esqueceu? Não viveu?
Desconhece? Perdeu? Morreu?
Aguardava viver e adormeceu.

O avesso cru

Durante muito tempo acreditei que o avesso era apenas a parte interna, talvez não desejada, de um objeto ou de alguma coisa. Estar ao avesso era contradizer as afirmações do senso comum. Foi daí que resolvi sair andando pela rua com a camiseta ao avesso. Cruzei Alfenas desfilando o orgulho de contradizer o que a maioria das pessoas acredita ser o certo. Por onde passei, despertei muitos olhares e a maioria deles era ofensiva ao meu comportamento (isso era bem normal e eu também faria o mesmo). Cheguei em casa. Pensei um pouco e decidi colocar a camisa do lado convencional. Andar com a camiseta ao avesso é notadamente um comportamento desajustado (louco) que causa um ponto de interrogação para a frágil capacidade de criação de símbolos. Se invertermos esta frágil capacidade, ao avesso, temos uma forte capacidade de criar padrões que não suportam os desajustes. O excessivo simbólico é habitualmente rejeitado.

Que porcaria eu to falando! Seria mais fácil dizer que a camiseta foi feita para usar com os desenhos para fora, não é mesmo, Larissa? Que mania é essa minha de complicar as coisas. Foi por isso que escolhi a palavra, avesso, para compor o significado do que proponho tratar no blog. Sou avesso à certeza. Invertendo: tenho como lado certo da camiseta a dúvida. Lembremos que no avesso do caule corre o alimento da planta, no avesso da imagem que o corpo transmite está o organismo que compete à sustentação da vida. Então toda esta merda que esboçamos é simplesmente para rabiscar no quadro negro que o avesso é também um constituinte da oposição e correlação certo/errado. Não há beleza que nunca foi feia nem tampouco feiúra que nunca foi bela. A beleza, a feiúra, o certo, o errado, o sábio, o louco, o doente e o sadio, todos estes conceitos, estão contidos no fabricante de camisetas, no produtor de sentidos avesso/face. Para que o mundo seja bonito é necessário vê-lo assim.

Sobre o cru, acho que não tenho muito que falar já que o cru é aquilo que julgamos não ter recebido algo que o distingue do cozido. O cru pode ser mudado a todo instante se possuirmos os meios para alterá-lo. Então o cru é a qualidade de estar pronto e ao mesmo tempo inacabado. Somos todos crus no oceano do universo simbólico. Somos seres humanos inacabados, crédulos e incrédulos que se movem entre dualidades.

Sai um dia para brincar e me ensinaram que brincar era coisa de criança.

Sai um dia para trabalhar e me ensinaram que o negócio era enriquecer.

Sai para ficar rico e me ensinaram que era necessário ficar milionário.

Voltei com as mãos vazias e com vontade de morar no mato.

(…)

Ainda existe muita escravidão e açoite.

Escravo que se rebelava ganhava corrente.

Pessoas que se calam consentem.